ENTREVISTA
Ari Grecco

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Ari Grecco
Ari Grecco, um dos mais experientes treinadores do País quando o assunto é futebol, esteve em Mossoró no fim da semana que passou para ministrar uma palestra a convite da Liga Desportiva Mossoroense (LDM). Aproveitando sua presença na cidade, a reportagem da GAZETA DO OESTE conversou com o técnico para saber sua opinião sobre essa profissão tão discutida no Brasil.
Ari falou um pouco do seu trabalho como palestrante e mostrou seu ponto de vista diante de assuntos que tomam conta do cenário nacional, tais como o Campeonato Brasileiro da Série A, o temperamento do técnico do Corinthians Emerson Leão, e o início do trabalho de Dunga frente à seleção.

GAZETA DO OESTE: Como surgiu a idéia de ministrar palestras para pessoas envolvidas ou que querem se envolver com futebol?
ARI GRECCO: Eu fui fundador da Associação de Treinadores de Futebol do Pará, e agora sou presidente da Associação de Treinadores de Futebol do Norte e Nordeste. Um dos meus objetivos frente a essas duas associações é congregar a classe, estimular um perfeito espírito de amizade e confraternização. E não só isso. Fazer também com que essa associação se vingue no Norte e Nordeste, fazendo com que os profissionais que busquem conhecimento possam fazer nas suas cidades esse trabalho de capacitação e qualificação, inclusive oferecendo certificado para que esses profissionais possam retirar suas Carteiras de Trabalho.

GO: Você, como treinador, acha mais difícil trabalhar no Norte e Nordeste ou no Sudeste do Brasil?
AG: Eu vejo com maior dificuldade no Norte e Nordeste, porque a infra-estrutura ainda não é igual a do Sul, mas acho que as coisas estão caminhando bem. Basta dizer que equipes da região estão se sobressaindo.

GO: Para você, treinador tem sua profissão desvalorizada no País?
AG: A classe não é unida, e, além disso, o pessoal também que milita no futebol não abre espaço como eu abro de capacitar outros profissionais. Desconhecedores da lei do universo: tudo aquilo que você dá, deve receber em dobro. E quando você dá de mal, recebe da mesma forma. E aqueles que sabem alguma coisa, não abrem oportunidade aos postulantes a treinador. Não dão chance para que os outros apareçam.

GO: Essa desunião é fruto de rivalidade?
AG: Não. É por causa da nossa cultura e do nosso sistema de vida. Infelizmente, no Brasil, primeiro os profissionais não têm humildade para se capacitar, principalmente no futebol, que todos se acham os donos do mundo. E eu, que faço seminários no Brasil inteiro, vejo que tanto técnicos como jogadores não sabem nem mesmo as regras do jogo. Acho que não seja propriamente uma rivalidade, mas uma falta de oportunidade, então eles se vêem ameaçados por aqueles que estão começando.

GO: Temos um exemplo de intriga entre técnico, imprensa e jogadores como é o caso de Emerson Leão, do Corinthians. Você ensina nas palestras como contornar esse tipo de situação?
AG: Nós temos uma parte no curso que aborda esse tema, mas no caso do Leão, ele já anunciou o encerramento da carreira dele com 60 anos, então ele tem mais três anos no futebol. Se ele tiver que antecipar esse encerramento, já está milionário. Agora, sim, ele pode bater no peito e colocar jogador na rua e bater de frente com a imprensa. Os que estão em início de carreira, o que nós pregamos é não fazer isso nunca, porque quem promove o futebol no Brasil são os jogadores e depois a imprensa. Eles que fazem os campos ficarem lotados. É aí que eu mostro como administrar cada situação.

GO: Os seis primeiros colocados da Série A no Campeonato Brasileiro foram os únicos que não mudaram de treinador. Você acha que eles não trocaram de técnico porque estão na frente ou estão na frente porque não mudaram de técnico?
AG: O tempo não mente. Ele é o nosso maior aliado. E aqueles dirigentes que tiveram a capacidade de manter os treinadores estão em melhor colocação. Isso se reflete também em outros campeonatos, mas nunca dão uma devida atenção ao trabalho perseverante dos dirigentes e do treinador, que fazem suas equipes ocuparem essas posições. Eu mesmo passei por 32 clubes e fui mandado embora em vários. E de repente aparece um árbitro chamado Edílson, que foi responsável por vários resultados, mas quem é mandado embora sou eu, assim como colegas meus. Nem sempre os principais culpados somos nós. Posso garantir que, às vezes, somos demitidos injustamente.

GO: Como você ver esse desafio de Dunga no comando da seleção brasileira? Ele era o nome mais capacitado para assumir esse cargo?
AG: Não acho. Ele pegou a seleção em um momento ruim, e quando se pega um time no fracasso é melhor pra você, principalmente com o Brasil, porque é muito duro perder com a seleção. O Felipão volta na hora que ele quiser, por ter saído por cima, mas já o Parreira e o Zagalo não retornam mais, porque o nosso futebol não tem essa cultura. Então, se pegar a seleção após uma indignação muito grande, qualquer resultado que se faz agora é positivo, até porque não se convocam mais aqueles taxados de responsáveis pelo insucesso. O Dunga tem o respeito como jogador e como capitão, mas como técnico ele não tem a bagagem necessária, embora eu tenha que reconhecer que ele está no caminho certo e não é um 'Maria-vai-com-as-outras', realmente está colocando sua personalidade de capitão como treinador e fazendo um bom trabalho.